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Conceito médico-biológico, proveniente do modelo médico da peste ligada à contenção do risco ao contágio, baseado na estratégia do modelo militar de esquadrinhamento do espaço. Na sociedade disciplinar, assim como a lei se transmutou em norma, a vulnerabilidade tornou-se estatuto correlato na construção do conceito de periculosidade, designando um dos aportes da prevenção geral que passou a ser articulada por dispositivos de normalização, contemporânea ao surgimento da prisão moderna. Assumiu correspondências imediatas à emergência da medicina social e intervenções reguladoras sobre populações, coincidindo com o aparecimento da estatística como um saber de Estado. Seus desdobramentos histórico-políticos respondem a uma gestão de poder específica – concomitante ao desenvolvimento do liberalismo –, compreendida como biopolítica: governo sobre a vida. A normalização é um dos efeitos de um poder que passa a investir sobre a vida, associada, não mais à figura do infrator e defesa do soberano, mas à defesa da sociedade parametrada pelos conceitos de periculosidade e criminoso. O deslocamento atual do conceito de vulnerabilidade, vinculado a programas e políticas de segurança, responde ao gerenciamento de populações construídas como duplamente vulneráveis, expostas ao risco da violência, equalizando pela seletividade o duplo vítima-criminoso, inerente ao sistema penal. Sua operacionalização, na sociedade de controle, provém de resultados de pesquisas voltadas ao combate à pobreza, no início da década de 1990, e baseia-se na qualidade de vida, articula a educação voltada à responsabilidade social; a estatística redimensionada em georreferenciamento; o cálculo do algorítimo do risco, proveniente da matemática, projetando índices de zonas e pessoas preferencialmente expostas a sofrer ou cometer determinados crimes; referências metodológicas extraídas da medicina epidemiológica e investimento em equipamentos sociais, articulando polícia, comunidade, ong’s e governos. O conceito de vulnerabilidade é antiabolicionista penal; seus efeitos histórico-políticos explicitam a continuidade da prevenção geral e o redimensionamento do campo de concentração a céu aberto.
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