hypomnemata 193

Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no.193, agosto de 2017.




#Terrorismos2017


em nome de quem?


Os ataques terroristas em 2017 seguem computados pelas agências diplomático-militares, ONGs e organizações internacionais na casa dos milhares. Os números variam entre 1.200 atendados com vítimas nesse ano contra 2.500 no mesmo período do ano passado.

Batalhas de dados, estatísticas, surveys e relatórios. Conflito de conceitos, teorias e especialistas. Intermináveis horas de debates televisivos, matérias em revistas especializadas ou não, eventos acadêmicos, livros das mais sisudas universidades e das livrarias de aeroporto.

Medo, medidas de segurança e guerra sem fim. A própria noção de “guerra sem fim” foi apropriada pelos protagonistas dos terrorismos.

Após os atentados de 11 de setembro de 2001, o então presidente dos EUA George W. Bush declarou que a retaliação que se seguiria seria uma “guerra longa, sem tempo demarcado”. Osama Bin Laden respondeu de forma análoga: “os cruzados hão de pagar onde nos violentam”.

Cada um, a imagem do outro refletida no espelho: a Verdade contra o Pecado, Alá contra a Democracia (e “Deus”, também, porque “in God we trust”). O choque entre iguais na fé no Absoluto.

Choque que as teorias baseadas na lógica da preservação do Estado, do capital e da propriedade privada, mista e estatal logo chamaram de “choque de civilizações”. E cordatos pesquisadores e professores, de norte a sul, compraram a ideia de uma guerra sem fim entre diferentes.

Será?


olê, olá, aqui e acolá

Nesse momento, os atentados mais comentados foram os cometidos na Espanha entre o 16 e 17 de agosto de 2017.

No mais impactante deles, quinze pessoas foram mortas enquanto caminhavam nas Ramblas de Barcelona, atropeladas por uma van. No dia seguinte, as explosões em Alcanar feriram outras dezesseis pessoas. A polícia afirmou que desbaratou um esquema que teria como efeito atentados mais letais dos que os praticados em Madri, em 2004. O Estado Islâmico, desde longe, assumiu a paternidade das ações.

Os terrorismos, desde finais do século XX, tornaram-se transterritoriais. Podem acontecer em muitos lugares, sendo praticados por um número incalculável de grupos que operam a partir de um “programa de ação”, reproduzindo táticas, discursos, métodos.

Enquanto Bin Laden vivia, muitos ataques eram atribuídos a seções locais da sua Al-Qaeda. Uma bomba explodia no Marrocos, a Al-Qaeda do Magreb reivindicava o atentado, as agências de notícia reproduziam, os aparatos de segurança dos Estados registravam, e Bin Laden aceitava e celebrava. Bin Laden foi assassinado em 2011, a Al-Qaeda não acabou, ou pelo menos quem diz ser “Al-Qaeda” continuou a agir em várias seções, filiais, células...

Muitos outros grupos surgiram, e desde que o Estado Islâmico emergiu dos escombros da ditadura de Saddam Hussein, no Iraque, eis a bola da vez: atentados das Filipinas à Califórnia são atribuídos e reivindicados por eles.

Multiplicam-se os chamados “lobos solitários”, ou as pessoas que agem sozinhas, com bombas coladas ao corpo, dirigindo vans ou caminhões ou entrando em bares, cafés, shoppings com fuzis em punho e tiros a esmo.

Geralmente essas pessoas são jovens, homens, filhos da diáspora africana, do Oriente Médio ou da Ásia. Nasceram nos guetos dos países do norte para os quais seus avós e pais migraram em tempos de bonança do capitalismo no imediato pós-Segunda Guerra Mundial e durante os processos de descolonização.

Muitos praticam a chamada “teologia da dissimulação”, que consiste em praticar pequenos crimes (como furtos ou consumo de drogas ilícitas), que não são associados a crentes islâmicos, para, assim, saírem dos bancos de dados eletrônicos das agências de inteligência.

Com isso, e munidos de documentos pessoais originais ou falsificados, viajam, compram armas, alugam veículos, adquirem produtos químicos para fazer bombas.

Com isso, as medidas de segurança das muitas agências militares e civis antiterroristas tornam-se ainda mais fluídas e dinâmicas. Se os terrorismos são chamados de transnacionais, a “guerra” contra ele também é: acontece aqui e acolá, promove reformas legais, incentiva a venda de novos produtos, softwares, dispositivos eletrônicos de segurança para terra, mar, ar... e espaço sideral.

Os negócios da segurança e dos terrorismos são globais e se retroalimentam.

Terrorismos” e “contraterrorismos” são parceiros de business alimentados pela produção generalizada de medo e da violência contra civis: exatamente os termos com os quais especialistas querem definir “terrorismo”.


fome de quê?

Bin Laden dizia lutar contra a presença de “infiéis” nas terras do Islã, visando a criação de um “Califado Universal”. Mesclava retórica anticolonial com radicalismo religioso.

Anos depois, o Estado Islâmico, no Iraque e na Síria, proclamou um “califado”, com tenda, califa e tudo o mais, fazendo paradas militares pelas cidades conquistadas, com tanques roubados dos quartéis iraquianos que, por sua vez, vieram dos EUA. Paródia de Estado, com território, bandeira, exército.

Mas os atentados pelo mundo começaram a dizer-se filiados ao Estado Islâmico: da Líbia à Espanha, dos EUA à França. O califa, lá no deserto, assumia orgulhoso o feito da sua prole de mártires.

Os presidentes e primeiros ministros ocidentais aceitavam a autoria, de olho num inimigo amedrontador o suficiente para garantir o voto de cidadãos atemorizados e os contratos bilionários para a indústria de armas.

Enquanto isso, na ONU e na academia, os especialistas seguem pelejando por uma definição de terrorismo.

Os humanitaristas afirmam que tal definição é fundamental para evitar “excessos” na “guerra ao terror”. Ou seja, demarcar o uso legítimo da violência.

Os militaristas defendem que apenas com um conceito universalmente aceito será possível ter tratados internacionais, cortes penais globais e leis nacionais alinhadas na repressão e punição de terroristas.

Muitos têm tentado definir “terrorismo”, mas sem sucesso. Para palestinos, Israel é terrorista. Para Israel, terroristas são os palestinos. Para chechenos, os russos são terroristas. Para os russos, são os chechenos a praticar o terror. Para estadunidenses, todos os muçulmanos são potencialmente terroristas. Mas e os supremacistas brancos que atropelam negros nos EUA, assim como fundamentalistas islâmicos passam por cima de pedestres na Catalunha, em Nice, Berlin e Londres?

A discussão é infértil, porque trata de uma infindável “produção de verdade”: “terrorista” é sempre o inimigo de alguém forte o suficiente para defini-lo como tal.

Não há “ontologia do terrorista” ou dos “terrorismos”.

Mas e os atentados contra civis, a destruição de propriedade, os sequestros, os comunicados aterrorizantes, os assassinatos seletivos, os ataques surpresa em grandes cidades? Isso tudo não é “terrorismo”?

Se for, para que “banco de réus” instituídos pelos tribunais internacionais para levar as forças especiais israelenses, a polícia secreta espanhola, as forças antiterroristas britânicas, os commandos estadunidenses, os soldados do Estado Islâmico, os guerrilheiros de selvas ao redor do mundo, apontável ou quem quer que imputável como “inimigo”?

Isso tudo não é terrorismo? Isso tudo não é a prática constante do Estado?

A “guerra sem fim” não é a “contra o terrorismo”. Ela começou antes e se atualiza a cada minuto, na guerra constante pela política.

O Estado e as leis são a guerra continuada por outros meios.


em meu nome não!

Na história contemporânea, os acusados de “terrorismo” sempre negaram a pecha. Consideram-se “mártires” ou “guerreiros da liberdade”. Terrorista é o outro.

Os únicos que francamente assumiram-se “terroristas”, afrontando o terror do Estado, foram os anarquistas que, no final do século XIX e começo do século XX, cansaram-se das leis severas, da censura da imprensa, do jogo corrompido da política e dos sindicatos e lançaram bombas em cafés, parlamentos, palanques, mansões e finos bulevares.

Jovens como Émile Henry e Ravachol afirmaram sua verdade diante dos tribunais e foram mortos pelo Estado.

Nas listagens atuais dos “ataques terroristas”, abundam os nomes árabes e as siglas de “grupos de libertação” que são, usualmente, variações sobre o mesmo tema (“libertação”, “nacional”, “popular” etc.).

Quase despercebido, computa-se um solitário ataque diferente: em janeiro de 2017, um alto-executivo da estatal do cobre chileno recebeu uma carta-bomba em casa. A explosão deixou a ele e a outras cinco pessoas feridas. Um grupo anarco-eco-terrorista chamado Tending Toward the Wild reivindicou o ato. Lutam pelo fim da exploração do cobre que dizima regiões inteiras do país, e junto com elas, suas populações originárias.

Os anarquistas são diretos e retos: não há Estado sem produção de terror, genocídios, prisões e extermínios. Não há regime de propriedade, estatal ou privada, sem geração de misérias. A violência e o terror de onde vêm?

Anarquistas não demandam por “mais Estado”, “mais leis” ou “mais punição”. São, por isso, insuportáveis ao Estado e a todos que lutam por Estado (seja o democrático, seja o califado). Entraram, assim, na lista de “grupos terroristas”, lado a lado com os neonazistas estadunidenses e os fundamentalistas árabes europeus.

Mas não são iguais.


10 e 11 de outubro, no tucarena, 19:30h, grátis

aula-teatro 22

a greve geral em são Paulo, 1917

verve31

rogério nascimento • edgard leuenroth •

josé julián llaguna thomas • paulo marques

uri gordon • edson passetti •

acácio augusto e salete oliveira • thiago r.


observatório ecopolítica

informativo quinzenal do nu-sol, ano II, n. 23, junho, 2017.

http://www.pucsp.br/ecopolitica/observatorio-ecopolitica/n23.html


revista ecopolítica 16

http://www.pucsp.br/ecopolitica/revista_ed16.html


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