hypomnemata 142

 Boletim eletrônico mensal
 do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 142, março de 2012.

No mundo verde empresarial-estatal, a inclusão de populações indígenas organizadas

 

 

No início do mês de março, a imprensa anunciou o acordo firmado entre uma associação indígena e uma empresa que atua no mercado de créditos de carbono – a companhia irlandesa Celestial Green.

O contrato garante à empresa os direitos de possíveis créditos de carbono da Terra Indígena Munduruku, com área de mais de dois milhões de hectares, na região da Amazônia Legal.

O investimento em créditos de Carbono com base na redução do desmatamento e da degradação florestal — também conhecido pela sigla REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), e redimensionado em REDD+, em 2008, pela ONU, com o objetivo de “proteger o modo de vida dos povos das florestas“— é parte do chamado mercado voluntário de carbono e sistema de certificações.

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O mercado de carbono apareceu na Cúpula da Terra, em 1992, e com o Protocolo de Kyoto, em 1997, foram estabelecidas algumas metas mais estritas acerca das reduções da emissão de CO2, e que passaram a ter valor econômico.

Diante das denominadas catástrofes climáticas e das reivindicações econômicas dos chamados países em desenvolvimento, a solução encontrada foi a de estabelecer metas na redução das emissões de gases para os países desenvolvidos que possibilitassem mecanismos de flexibilização para não comprometer suas economias. O comércio de créditos de carbono proporciona a estes países a compra de créditos dos países que não ultrapassarem estas metas, gerando um “excedente de proteção ambiental”.

Quanto aos países em desenvolvimento – não pressionados à redução de emissões pelo Protocolo de Kyoto –, o incentivo à redução (ou captura) dos gases, se daria pelo “Mecanismo de Desenvolvimento Limpo” (MDL) que possibilita a compra de créditos de carbonos pelos países desenvolvidos, por meio do mercado voluntário de carbono.

Um dos negócios políticos em suas variáveis derivações consiste no fato de que países desenvolvidos e em desenvolvimento podem criar parcerias, programas e tudo o mais que contribua para a redução da emissão (ou captura/neutralização) de gases com a criação de tecnologias mais limpas ou investimentos em mecanismos de captura de carbono, como o reflorestamento.

No entanto, o chamado mercado voluntário de carbono não se restringe às ações pelo MDL, possibilitando mais do que o investimento em novas tecnologias, na medida em que sinaliza também para os créditos gerados pelo não desmatamento, ou seja, pela preservação e cuidado com as florestas.

Em função desse novo valor econômico da Amazônia, o Brasil tem sido alvo de inúmeras propostas de investimentos estrangeiros, estabelecendo uma relação empresa-empresa recoberta de política governamental.

Investidores e outros integrantes do governo brasileiro ressaltam o importante valor desse mercado, desde que devidamente regularizado.

Entre discussões e acordos, também são negociados os investimentos e benefícios destinados às populações locais, segundo os princípios da sustentabilidade.

Defende-se o bem-estar e a melhor decisão para os povos indígenas, “protetores” da floresta “por natureza” (e em alguns casos pela legislação), compondo uma retórica eficiente ao desenvolvimento sustentável.

Sabe-se que, no passado, esses povos da floresta não aceitavam passivamente as intervenções de Estados, de fazendeiros ou de empresários, mas, hoje em dia, também aprenderam que a legitimidade do negócio acontece por meio de acertos com as lideranças.

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O investimento de empresas como a Celestial Green entra em pauta sem questionamentos sobre os negócios no mercado de carbono futuro. O problema governamental restringe-se a quem serão os beneficiários, pois todos querem o seu quinhão, pelo que lhe é de direito em nome de sua etnia, de seu povo, e em nome do bem do planeta e do desenvolvimento capitalista em geral. É preciso negociar o melhor para todos.

No acordo celebrado entre algumas lideranças Munduruku e a empresa Celestial Green, no montante de US$120 milhões, os Munduruku não poderão realizar plantio ou extração sem autorização da empresa irlandesa, pelos próximos 30 anos. Devem abrir mão do uso da floresta e mesmo dos possíveis direitos de venda dos créditos de carbono gerados neste período.

O presidente da FUNAI apressa-se em dizer que não considera ruim a negociação de créditos de carbono – pelo contrário, enfatiza que o negócio pode ser muito proveitoso aos povos indígenas –, mas o contrato em discussão deve ser tomado como ilegal porque não há regulamentação no país que defina este tipo de negociação. Eis uma nova tarefa para os legisladores de consciência green.

O Estado brasileiro promete intervir uma vez que as discussões relativas ao acordo passaram ao largo de seu conhecimento e decisões.

Para alguns comentaristas do tema, o problema do contrato da Celestial Green reside neste ponto: não se trata de uma impossibilidade de assinatura pelos indígenas, mas do fato de que nenhum projeto de especulação de créditos de carbono terá êxito se não houver um forte investimento em um “projeto de vida” para as populações envolvidas, baseados na opção pelo manejo sustentável dos recursos naturais.

Em suma, nada indica que os Munduruku cumprirão um contrato sem o respaldo do Estado, assim como não há nenhum documento da Celestial Green que indique um projeto de gestão territorial.

A gestão da vida e do território dessas populações já está em curso, seja por empresas, ONGs ou governos. O investimento no mercado de carbono apenas propicia formas mais eficientes de extração do lucro no controle e gerenciamento da vida dos outros. Dessa maneira, os Munduruku e os seus mediadores têm a brecha aberta para a negociação.

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Se no passado a existência de povos que viviam segundo regras alheias ao capitalismo era, simultaneamente, perigo a ser combatido e utopia idílica, hoje sua vida interessa como alternativa incorporada e necessária ao mercado que se abre a partir das exigências dos que imaginavam a possibilidade de fugir do capitalismo por meio da cultura alternativa: equívoco dos que sonham com legitimidades ou dos que recebem a pecha de fantasiosos pela presidência do país.

Os povos indígenas interessam enquanto nativos ecológicos, sentinelas dos bens naturais sob o comando de brancos, do Estado, das grandes empresas ou de negócios naturais.

O green business prospera com as novas possibilidades de investimentos. As populações locais e nativas, antes vistas como percalços diante de investimentos lucrativos, são incorporadas em negociações acertadas com suas lideranças, encabeçando a representação democrática e participativa do seu povo.

Reciclados em programas, mumificados em reservas ou transformados em adubo para o crescimento de verdinhas, esses povos se veem reduzidos a um punhado de direitos e, quiçá, alguma grana.

A gestão da vida no planeta ganha contornos cada vez mais verdes. Contornos flexíveis, negociáveis e elásticos que pretendem amortizar o que for demasiadamente vivo, ou assustadoramente errático.

Conta-se que só ao final do século XVIII os colonizadores europeus conseguiram vencer os Munduruku, povo guerreiro, estabelecendo o que se entende por “acordos de paz”.

Os Munduruku, famosos por suas práticas guerreiras de “caçar cabeças”, carregando-as como troféus de fortes batalhas, encolhidas e mumificadas como objetos mágicos, tornaram-se, neste momento, o mais novo alvo de descolados headhunters, em busca de outras mumificações.

Hoje, eles, como outros povos indígenas, como os Suruí e os Cinta Larga, no Brasil, encontram-se atraídos pela empresa-Estado capitalista: para sobreviverem, não escapam do mercado verde ou marrom. Para os negociadores são os desejados headhunteds (cabeças caçadas).

Não é de agora que guerreiros de povos das mais diversas etnias se veem em tal encruzilhada. Os novos headhunters encolhem e mumificam muito mais do que a cabeça. Cabe a estes povos inventar maneiras de viver sem se tornarem reféns das grandes empresas ou do Estado.

 

É preciso um sobressalto. Será possível?

 

 

AULA-TEATRO 11. SAÚDE!

21 e 22 de maio de 2012, às 19:30 hs, no Tucarena/PUC-SP

Retirada de ingressos gratuitos a partir das 18 hs na bilheteria.

 

com o lançamento de

VERVE 21, comemorando 10 anos da revista autogestionária do Nu-Sol

 

leia flecheira libertária, todas as 3as. feiras em www.nu-sol.org

 

 em 4 de junho de 2012, no Tuca, sala Paulo Freire, às 19:30 hs

lançamento do documentário Ecopolítica-Ecologia

 

Em 5 e 6 de junho, às 19hs, no Pátio do Museu da Cultura PUC-SP.

Ecopolítica e a produção da verdade sustentável para o governo do planeta (apresentação de resultados dos dois primeiros anos de projeto-temático Fapesp).

 

www.nu-sol.org

www.pucsp.br/ecopolitica