hypomnemata 141
Boletim
eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade
Libertária
do
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no.
141, fevereiro de 2012.
Drogas, cuidados e ambientes monitorados
Eles são chamados de nóias, zanzam como andrajos à cata de
resíduos, material para reciclagem a ser entregue em cooperativas
sustentáveis, uma esmola, uma pedra de crack.
Pernoitam pelas ruas da cidade e sustentam o olhar atônito.
Governo e população
mostram-se confiantes em higienizar as ruas destes farrapos com programas
repressivos e ambulatoriais. Enquanto isso as classes mais abastadas procuram curar
seus parentes em clínicas especializadas que não dispensam o uso
de maconha, ou em pentecostais, com suas conhecidas práticas de
resignação.
Vivemos uma nova maneira de
abordagem do chamado usuário de drogas. A
legislação recente reconhece os programas de
redução de danos que investem em cura e inclusão
e autoriza o uso do ayuasca para
cerimônias religiosas. Concentra a repressão no tráfico,
apesar de imprecisa quanto à portabilidade de substâncias
ilícitas. Assim, os programas de governo voltam-se ao atendimento
ambulatorial com terapêuticas, investindo na vontade do
usuário de abandonar a droga.
O combate às drogas passa
hoje por uma modulação, para além da repressão.
Personalidades públicas difundem seus argumentos favoráveis
à descriminalização da maconha; pipocam marchas com
o respaldo jurídico e policial defendendo a liberdade de
manifestação; mídias e a internet produzem variadas
opiniões.
Circula, assim, a
construção de um consenso relativo aos novos cuidados com
a pasmada população de usuários, não desconhecendo
os moralistas de plantão que exigem repressão, isolamento ou o
abate desta parte do rebanho e limpeza do espaço para o seu
trânsito como gado limpo e reprodutor. O consumo de liberdades governa o
temário da descriminalização e dos cuidados com os nóias, compondo o conjunto aceitável,
neste momento, para a ecologia ambiental.
A reviravolta neoliberal
provocada pela implementação constante
do desenvolvimento sustentável, produz novas maneiras de governar
condutas. Os programas ambulatoriais e de redução e danos
funcionam voltados para um indivíduo do qual espera a despoluição
de si. Os efeitos das lutas ecológicas ultrapassam o tema da
preservação e da conservação da natureza para se
situarem nos ambientes monitorados das cidades, não só por
meios eletrônicos.
Deixamos a era do pastorado na
qual um líder atendia às faltas individuais e coletivas do
rebanho. Agora, cada membro também deve ser um pastor de si e dos
demais, mostrar-se resiliente, monitorar as
condutas de cada um e configurar-se como um cidadão-polícia,
convocado à participação constante para além da
representatividade política.
Os nóias
são indivíduos a serem despoluídos e vinculados a
programas de higienização de zonas das cidades com interface com
os programas de revitalizações urbanas voltados à
população em geral. Eles devem ser tratados e, como os
demais, ocupados para o seu benéfico e o da cidade, recebendo cuidados
necessários para descobrirem suas potencialidades produtivas, afastados
do vício e da violência.
Os programas expressam a
racionalidade neoliberal relativa à conformação do
indivíduo como capital humano, combinando repressão e
atenção com saúde atrelada à segurança,
pelos quais governos e a sociedade civil organizada contam com cada
cidadão-polícia na higienização dos ambientes.
Constata-se, uma vez mais, que o
tráfico de drogas é algo impossível de ser extirpado (sua
supressão levaria a déficits monumentais na indústria
bélica e financeira) e que ele exercita suas mobilidades, instalando-se,
agora, no México e nas regiões norte e nordeste do Brasil.
Resta ao usuário de crack a esperança na salvação,
celestial ou ambulatorial, com inclusão? O sonho da
higienização provoca a descentralização da cracolândia-SP.
Vagando como morto-vivo, porque
esta também é a face da liberdade do consumo, caminha doidão,
como testemunha do jamais limpo e salutar capitalismo. Estampa em seu corpo a
putrefação dos asseados, saudáveis e bem vestidos
conformistas adeptos das melhorias na subsistência.
verve 20
sébastien faure,
saul newman, edson passetti, roberto bolaño, cecilia coimbra,
anamaria salles, alfredo veiga-neto, maura corcini, acácio augusto,
christian ferrer, salete oliveira, beatriz carneiro e garatujas de
três crianças
e + vervedobras
21 e 22 de maio, tucarena-sp, aula-teatro 11: SAÚDE!
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flecheira libertária, toda
terça-feira