hypomnemata  122

Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
n. 122, junho de 2010

Guerra, gerenciamento, conformação

Escaramuças, ataques, carros bomba, pessoas bomba, mísseis, muros, cercas: rotina de guerra na Palestina. Quando, no início de junho de 2010, um navio com militantes de direitos humanos partindo do Chipre foi interceptado por um comando militar israelense, os nove mortos civis decorrentes da ação pareciam ser personagens de outro capítulo de uma história recorrente de violências que remonta, ao menos, a 1948.

Desde aquele ano, com a criação do Estado de Israel, árabes e judeus vivem numa situação de guerra ininterrupta que inclui expansão territorial israelense sobre países árabes (como Síria, Líbano e Egito) e resistências nacionalistas por parte dos palestinos, com destaque para as ações da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), formada em 1964.

Israel tem sido, nessas décadas, a ponta de lança da presença estadunidense no Oriente Médio, primeiro para garantir a região ao bloco ocidental durante a Guerra Fria e, a partir dos anos 1990, para limitar o extremismo islâmico, manter o acesso às fontes de petróleo, água potável, acesso para o mar e conter o Irã, hostil ao Ocidente desde a revolução islâmica, de 1979.

Após o fim da Guerra Fria, abriu-se espaço para que o nacionalismo palestino pudesse ser equacionado em meio ao processo no qual despontam arranjos diplomáticos interessados em federalizar o planeta, incorporando as demandas nacionais em fluxos de cooperação delimitados por tratados, protocolos e foros de concertação multilaterais.

Assim, em 1993 e 1995, acordos mediados pelos Estados Unidos legitimaram politicamente a OLP de Yasser Arafat – até então tida como um “grupo terrorista” − em negociações com Israel que, dentre outros itens, produziram a Autoridade Palestina como um proto-Estado dividido em duas partes não contíguas, uma na Faixa de Gaza, outra na Cisjordânia.

A proposta visava preparar o caminho para uma futura Palestina independente, comandada pelo partido Fatah – a OLP desarmada – apaziguada o suficiente para que Israel aceitasse sua existência. Com isso, Fatah, Israel e os EUA esperavam construir um Estado sob controle, anulando forças como o Hamas na Palestina e o Hezbollah, no sul do Líbano, que pregavam a destruição de Israel e que continuaram a ser tratadas como “terroristas”.

A Autoridade Palestina passou a ser financiada com recursos vindos de Israel e da cooperação ocidental, que incluía um plano para independência da Palestina baseado na modelagem de um Estado democrático liberal.

A realização de eleições, no entanto, levou à vitória do Hamas, em 2006. Depois do fracasso em se formar um governo de coalizão entre o Fatah e o Hamas, cresceu a violência entre os grupos, resultando na conflituosa divisão dos territórios palestinos: o Fatah continuou governando a Cisjordânia, enquanto o Hamas tomou a Faixa de Gaza.

De lá, o Hamas aumentou os ataques a cidades e colônias israelenses com mísseis caseiros, o que serviu de justificativa para que Israel isolasse a região e iniciasse constantes ações militares para caça e assassinato de lideranças palestinas. Assim, desde 2007, apenas a entrada de ajuda humanitária (alimentos e medicamentos), administrada por ONGs e agências da ONU, é autorizada por Israel na Faixa de Gaza.

Os ativistas que tentaram chegar à Faixa de Gaza, no navio interceptado, pretendiam furar o bloqueio para levar, precisamente, ajuda humanitária. Faziam parte da ONG Gaza Livre, sediada em Chipre, que está em conformidade com as resoluções do Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU e outras ONGs humanitaristas que seguem denunciando o que consideram ser violações dos direitos humanos e crimes de guerra cometidos por Israel.

Os israelenses continuam a afirmar que não admitirão qualquer tentativa de transpor as barreiras que isolam Gaza.

Uma vez mais, os EUA procuram ativar negociações que retomem o processo de formação do Estado Palestino.

É possível compreender que interessa aos EUA e à coalizão por eles liderada criar esse Estado em Gaza e na Cisjordânia, porque seria esse um modo de pacificar a região, neutralizando o Hamas e, com isso, sedentarizando forças transterritoriais afinadas à “causa nacional palestina” que, segundo o discurso diplomático-militar ocidental, estão articuladas ao chamado “terrorismo fundamentalista islâmico”.

Além disso, esse Estado poderia contentar a maioria dos palestinos − muçulmanos xiitas, assim como os iranianos −, o que poderia enfraquecer a influência do Irã e as ações tanto do Hamas quanto do Hezbollah, que ataca Israel, desde o sul do Líbano.

Está em jogo, enfim, a contenção militar e o gerenciamento diplomático e jurídico-político da Palestina.

Na política internacional contemporânea emergem práticas de governo que visam gerenciar regiões do planeta de modo que os fluxos econômicos e de informação do capitalismo global encontrem poucos obstáculos e interferências, ao mesmo tempo em que os fluxos inimigos (como o terrorismo) possam ser combatidos e controlados.

Coligações de Estados intervêm em lugares tidos como nódulos desses fluxos globais, investindo em guerras rápidas e ocupações continuadas em nome da “paz e segurança internacionais”.

As guerras não são mais demarcadas por declarações de hostilidade entre Estados ou são concluídas com tratados de paz.

Hoje, elas objetivam manter e rearranjar o sistema, corrigindo os fluxos de capital e mantendo a segurança de Estados em vias de federalização, combatendo inimigos invisíveis transterritoriais e administrar estados de violência.

Assim como o Estado mantém uma guerra continuada no plano interno para sustentar a paz civil, forma-se, com rapidez, um novo sistema de segurança entre e para além dos Estados: um sistema de segurança global − e não apenas internacional − que pretende constituir uma gestão compartilhada de práticas de governos no e além do planeta. A usual noção de estabilidade é substituída por práticas de gestão de conflitos e interesses, segundo a perspectiva de cada força componente e o poder de cada uma.

Nesse sistema, a formação de novos Estados é viável se houver disposição para que eles se integrem e deem vazão aos fluxos econômicos, informacionais e diplomático-militares planetários.

Um possível Estado Palestino que aceite o apoio ocidental e a existência de Israel poderia equalizar uma dada delimitação das forças regionais voltada à segurança do Oriente Médio como um componente da segurança planetária.

No entanto, uma Palestina reativa aos EUA e seus aliados não corresponde à exigência de tolerância, respeito ao direito internacional e aceitação dos modelos político, social e econômico universalizados a partir do Ocidente.

Por isso, ainda ameaçadora ao governo planetário, a Faixa de Gaza se transforma em uma grande área de confinamento, isolada pelo poderio militar israelense e sustentada pelo humanitarismo combinado entre ONGs, União Europeia, países árabes, EUA e ONU.

A articulação entre humanitarismo, resistências reativas, nacionalismos militaristas, interesses geopolíticos e arranjos diplomático-militares fazem do atual momento do chamado “conflito israelo-palestino” um laboratório de práticas para o governo transterritorial − simultaneamente local e planetária − e para a conformação de novo sistema de gestão de seguranças que preservem a paz dos Estados, do capitalismo e da democracia

 

 o estado das coisas 2, ou continuação...

...singular,
                        hoje, também é mote de companhia de turismo para a venda de pacotes de viagem para resort localizado em Orlando, nos Estados Unidos.

inovação ,
                        tornou-se propaganda de operadora de telecomunicações.

estilo,
             serviço para cliente preferencial de banco.

"imagine",
                     canção de John Lennon composta quando se mudou para New York com Yoko Ono; ao mesmo tempo ele foi considerado um dos homens mais perigosos do país, pelo governo de Richard Nixon, por apoiar os Panteras Negras e as manifestações antimilitaristas contra a Guerra do Vietnã; hoje, “imagine” virou jingle publicitário de... banco, também.

prazer ,
                   
slogan para divulgação de shopping Center.

revolução ,
                        comprar um automóvel.

transformação :
                                empreendimento imobiliário, projeto social de multinacional, empresa de reciclagem, Governo Federal.

liberdade 
                           
é pra vender cueca.

 

então, depois de tantas palavras devassadas, que tal     silêncio!

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