hypomnemata  117

Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
n. 117, janeiro de 2010

 

AULA-TEATRO 6. FOUCAULT, intempéries
1 e 2 de março de 2010, 19:30 horas
tucarena, r. monte alegre 1.024.

retirada de ingressos gratuitos a partir de 18:30 hs do dia da apresentação.
programação de recepção aos estudantes da faculdade de ciências sociais-puc/sp.

 

O AYITI ...

Terras altas

As elevações no horizonte de um mar revolto, as montanhas do Ayititerras altas na língua indígena taino –, faiscavam ouro e especiarias no sol poente. Em 1492, em madeira tosca, uma fortificação espanhola inaugurou a América à sombra da caravela Santa Maria encalhada em um banco de areia na Bahia do Caracol. Os caraíbas ajudaram Cristóvão Colombo a retirarem os objetos importantes da nave, antes das ondas destroçarem-na. Meses depois, o Forte foi encontrado destruído e os marinheiros  invasores mortos. Restou uma âncora, enferrujada, nas ruínas. No entanto, o nome América já se estendia ao continente recém encontrado pelos navegantes e marcava-se em cobiçados mapas vendidos e contrabandeados pela Europa.

Ouro Verde

Século XVII: corsários, flibusteiros, bucaneiros ingleses, franceses, holandeses circulavam ao redor da ilha montanhosa, atacando navios, espanhóis ou não, defumando carne de bois selvagens no bucanan à moda caraíba, contrabandeando. Em meados do século, alguns desses flibusteiros se tornaram donos de grandes extensões de cana cultivadas em nome da França que ocupou parte da ilha, cedida oficialmente pela Espanha apenas em 1693. O preço do açúcar estava em alta nos portos europeus, os raros indígenas remanescentes refugiavam-se cada vez mais longe, nos picos das montanhas. Quem arava os campos e movia as moendas eram os escravos negros.

O lucrativo tráfico negreiro povoava a ilha com africanos vindo de terras hoje conhecidas como Benin, Congo, Nigéria, Guiné.

Vibrações

1750, 1790, como ventos e terremotos, as frequentes rebeliões na ilha eram engendradas e noticiadas em vibrações no ar e no solo pelos tambores e trompas de caracóis. Os nomes e feitos de Mackandal, Boukman e tantos outros negros faziam a ilha tremer. Pesados passos nas trilhas entre as plantações anunciavam a chegada violenta dos que recusavam ser escravos. Muitos ainda africanos, reencontraram nessas terras altas da América sua morada no mundo. Com armas, venenos e corpos insubmissos a correntes e cadeias ocupavam fazendas e eliminavam os senhores. “Liberdade ou morte” - gritavam.

Do outro lado do oceano, na França, vagalhões de revolucionários decapitaram o rei aos brados de igualdade e liberdade e as notícias chegaram à Ilha de São Domingos pela boca de marinheiros e papéis timbrados do novo governo francês. As lutas continuaram na próspera ilha, e a escravidão é abolida em 1793. Toissant Louverture, um ex-escravo, vestira os trajes do exército francês, ganhou patente e se tornou governador-geral nomeado pela França. No entanto, suas decisões autonomistas incomodaram o novo Cônsul Francês, Napoleão Bonaparte, que assim, enviou seu cunhado e muitas tropas para combater as dissidências. Destituído e preso, Louverture morreu no exílio.

A guerra continuou e o tenente Jean-Jacques Dessalines, também ex-escravo, rompeu com a Europa e venceu o exército francês de Bonaparte. Em 1 de janeiro de 1804, proclamou a independência da ilha, nomeando-a Haiti. Massacrou os franceses para evitar resistência interna dos brancos. Meses depois, proclamou-se imperador, o imperador Jacques I.

Haiti, Sans Souci

Vieram governar, depois, muitos presidentes vitalícios e ditadores negros e mulatos. Um outro autoproclamado rei governou o norte do Haiti em breve momento de divisão territorial. Na primeira década do século XIX, Henri Christophe I construiu a fortaleza de Lafèrriere, destinada a ser invencível. Na mistura da argamassa, utilizou sangue de dezenas de touros especialmente sacrificados. Ergueu diversos palácios, com destaque para o edifício que denominou Sans Souci (Sem problemas) decorado com espelhos à maneira de Versailhes, hoje quase em ruínas.

Em 1825, o país se encontrava reunificado, mas ignorado por todos outros Estados Nacionais que não o reconheceram. No afã de entrar para o concerto das nações, o Estado haitiano cedeu às pressões da mãe França e se comprometeu a indenizá-la pela perda dos seus escravos na ex-colônia, dívida cujo pagamento se estendeu até meados do século XX, e que equivalia a aproximadamente 22 bilhões de dólares atuais.

Ainda assim, a força da ousadia em se querer criar um país a partir de uma rebelião de escravos assombrou os escravocratas da Lousiana ao Rio de Janeiro. Nas cidades e campos americanos povoados de negros, os brancos temiam a eclosão de um, dois, muitos Haiti.

Quando os malês, negros muçulmanos feitos escravos em Salvador, convulsionaram a cidade, em 1835, os brancos se apavoraram com a sombra de Louventure. A repressão aos malês baianos e aos negros escravos ou libertos em todo Brasil foi feroz. Pânico: o Haiti poderia ser aqui, ali e acolá.

Século XX

Em 1915, veio a invasão dos Estados Unidos. Foram combatidos sem trégua por negros que surgiram das montanhas com machados, garruchas, facões. Insubmissão. No entanto, quando os estadunidenses se foram em 1933, deixaram bem colocada uma elite negra e mulata autoritária para dentro e servil para fora.

Ficou aberto o caminho para a tirania de François "Papa Doc" Duvalier e, depois seu filho, Jean-Claude "Baby Doc". Nas ruas, as milícias dos Tontons Macoutes ("os homens do saco"), matavam em nome da ordem com beneplácito de dentro e de fora.

Quando a Guerra Fria esfriou de vez e "Baby Doc" se exilou na Riviera francesa, os haitianos escolheram um ex-padre, Jean Bertrand Aristide, como seu novo salvador. Eleito presidente em 1990, Aristide durou pouco no governo. Veio outro golpe de Estado que o fez fugir para os Estados Unidos. Os Clinton o adotaram. Ele voltou. Mais adiante foi eleito novamente. Dessa vez, foi deposto de vez.

Então, a ONU organizou uma outra missão de paz. A Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah). Não foi a primeira missão da ONU no país, mas trouxe novidades: em primeiro lugar, era formada apenas por "países emergentes" (o Terceiro Mundo de outrora, destacando-se o Brasil); depois, tinha como meta "construir um país" onde a dita "comunidade internacional" não reconhece um. Haverá algum dia reconhecido?

Haiti século XXI

Jeitinho

Quando o Brasil enviou suas forças de paz ao Haiti em 2004, queria mostrar um novo paradigma em operações de paz, voltado para o desenvolvimento e a reconstrução do país, suas instituições e sociedade democrática. Em cinco anos vemos que isso se materializou. Fizemos diferença no país. A Minustah [Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti] é reconhecidamente a mais exitosa operação de paz". Tais palavras são do embaixador do Brasil no Haiti, proferidas em um Seminário sobre as Operações de Paz, realizado no Rio de Janeiro, na Escola de Operações de Paz dos Fuzileiros Navais, em novembro de 2009. Prossegue: "Querem saber qual o segredo para a integração das nossas tropas com as pessoas nas ruas? Não é segredo, é a índole do brasileiro, que não é adquirida em centro de treinamento".

Um dos chefes dos fuzileiros navais brasileiros no Haiti definiu no mesmo Seminário a índole do brasileiro: “O brasileiro é avesso ao formalismo e transita bem entre a inimizade e a amizade. É o próprio ‘homem cordial’”.

 

“Braço forte, mão amiga”, policia em dupla

No conjunto, a Minustah tem algo assim como as duplas de policiais em interrogatórios ou blitzes: o policial durão e o policial compreensivo.

Armadas e com licença para matar se considerarem inevitáveis, as tropas da ONU fazem o papel durão, mas sem exageros, pois estão ali na condição de força pacificadora.

As ONGs fazem o policial compreensivo, disposto a quebrar a vontade do suspeito, envolvendo-o em amigável cumplicidade.

Ambos permanecem policiais, o durão e o amigável, ambos continuam orientando as condutas e identificando possíveis transgressões e resistências a programas bem estruturados de ordenamento da população para assim, as enfraquecer por meio da repressão ou de cordial captura.

 

Num minuto...

Haveria eleições em fevereiro de 2010.

As chamadas guerras de gangues nos bairros populares haitianos expressavam lutas partidárias locais, mas para as operações de paz, o mérito desse ou daquele grupo não entra na pauta, importa que se pacifique, sem que se esclareça qual lado perdeu ou ganhou. Para isso, se criminaliza o ato considerado violento, sem nem olhar seu porquê, depois vem a punição a seu agente, ao mesmo tempo em que se previnem novos atos, usando persuasão e cordialidade.

Um exemplo pontual do que foi considerada vitória sobre a violência: a ONG brasileira que integra as ações de paz relatou a façanha de ter conseguido pacificar os violentos distúrbios do bairro Bel Air, em Porto Príncipe, em 2008, sem explicar a que tais distúrbios se referiam. Afinal, seu papel era de levar a cultura de paz, a “ginga brasileira”.

Tais protestos eram contra a elevação dos preços, mas foram contidos cordialmente, ao lado dos tanques Urutus e dos fuzis em ação. Os preços aumentaram em paz. Com essas operações, as gangues se assentaram, não só em Bel Air, mas também em outros bairros críticos, a ponto de serem marcadas novas eleições.

A Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti – Minustah comemorava essa “vitória”. No entanto, poucos quilômetros abaixo, as placas tectônicas se deslocaram e, em um minuto, desestabilizaram a superfície; o solo rachou, tremeu e edifícios desmoronaram.
 

Sacudir a poeira levanta mais poeira!

Nem bem a poeira dos escombros começou a baixar, as manchetes alertavam para os saques, os estupros, a ameaça dos presos fugitivos do presídio, o retorno de gangues combatidas com tanto êxito pelas forças de paz e projetos culturais de ONGs amigáveis.

Nem bem a poeira dos escombros começou a baixar, e apareceram as empresas especializadas em reconstrução humanitária, segurança, transporte de emergência, cães amestrados, logística de distribuição de alimentos e recursos em casos de catástrofe. Empresas norte-americanas na maioria, que cresceram com o atendimento aos efeitos do furacão Katrina em Nova Orleans, oferecem seus préstimos contra os desordeiros, os quais, em um Estado que não os controla e reprime, tomarão conta dos recursos para a reconstrução do país.

Nem bem a poeira dos escombros começou a baixar, agências de noticias de maior penetração orquestraram suas imagens em textos e áudio-visuais: as câmeras em busca de gestos descontrolados e olhar esgazeado como expressão da sanha do saque. Corpos negros cobertos de estuque branco escapam de buracos e ruínas com a ajuda de homens fardados e cachorros espetaculares. Endurecidos cadáveres insepultos nas calçadas. Os expressivos ângulos de pessoas que se empurram na luta por uma garrafa de água. Armados e blindados, militares e policiais da paz percorrem as ruas onde grupos de sobreviventes perambulam, tratados como hordas de saqueadores insanos. Os haitianos? Quem?

Blocos de diversas fardas e línguas disputam com suas armas e veículos a ajuda humanitária e os rebanhos a alimentar e por em segurança. Grandes oportunidades empresariais e políticas se descortinam através da névoa das paredes desmoronadas.

 

toda terça-feira, flecheira libertária
em www.nu-sol.org

Palavras insurgentes

Uma vez estabelecida a peste numa cidade, seus quadros desmoronam, não há mais lixeiros, nem exército, nem polícia, nem prefeitura; surgem fogueiras para a queima dos mortos, conforme a disponibilidade dos braços. (...) Os mortos atravancam as ruas, em pirâmides instáveis que os animais roem aos poucos. O fedor sobe pelo ar como uma labareda (antonin artaud).

Nunca, quando é a própria vida que nos foge, se falou tanto em civilização e cultura. E existe um estranho paralelismo entre esse esboroamento generalizado da vida (...) e a preocupação com uma cultura que nunca coincidiu com a vida e que é feita para dirigir a vida. (...) Mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência nunca salvou uma pessoa de ter fome e da preocupação em viver melhor, quanto extrair, daquilo que se chama cultura, idéias cuja força viva é idêntica à da fome (antonin artaud).

A organização da autoridade chama-se Estado (josé oiticica).

 

Os mestres só existem porque existem escravos, e deuses subsistem apenas porque os fiéis se ajoelham (émile armand).

Yo di zot libéte pa ponm kannel an bout branch! Fok zot désann raché' y, raché' y, raché' y...

Liberdade não é graviola na ponta do galho! Vocês tem que arrancá-la, arrancá-la, arrancá-la... (de texaco de patrick chamoiseau, da martinica).

 

 

em maio aula-teatro 7 e verve 17 em novo formato

 

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