hypomnemata
116
Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade
Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em
Ciências Sociais da PUC-SP
n. 116, dezembro de 2009
toda terça-feira, flecheira libertária
em www.nu-sol.org
O clima da segurança e novos
manicômios
Um dia o trancafiaram em um
manicômio francês.
Ele fugiu, no início do
mês de dezembro. Encontrou um jovem e o matou.
O presidente francês
aproveitou o mote e anunciou o pacote de medidas para a nova gestão
manicomial, combinando prisão-psiquiátrica de segurança
máxima, otimização de recursos governamentais em
seguridade e minimização de custos dos designados tratamentos
confinados e externos.
O presidente faz uma visita inusitada ao manicômio, ao
seu término pronuncia:
“Doentes na prisão
é um escândalo. Mas, pessoas perigosas na rua também o
são.”
Escalona-se assim o perigo projetado, do terrorista
ao psicopata, passando pelo pedófilo. No discurso da autoridade
sobressai uma equação atual de políticas de controle.
O Presidente: “Será preciso
transformar uma parte do hospital psiquiátrico levando em
consideração esta trilogia: a prisão, a rua e o hospital,
e encontrar um justo equilíbrio e um compromisso
satisfatório.”
A trilogia se desdobra entre o
equilíbrio e o compromisso que satisfaz tanto as mediações
voluntárias como as medições ponderadas
compulsórias.
As novas medidas do governo francês
para as internações psiquiátricas:
Um dia o trancafiaram na medida.
Um dia o trancafiaram no governo.
Um dia o trancafiaram no equilíbrio
Um dia o trancafiaram no compromisso.
Um dia o trancafiaram num manicômio.
Um dia o trancafiaram em uma prisão.
Um dia o trancafiaram no hospital.
Um dia o trancafiaram na rua.
Um dia o trancafiaram.
Um dia ele fugiu.
Um
dia...
Lógica do absurdo
De dentro de
seu carro sport, um jovem empresário, cuja empresa tem responsabilidade
social, olha pela janela e observa uma cidadã consciente recolhendo
a merda que seu cachorro defecou.
De dentro do seu carro, parado no
trânsito de São Paulo, ele tem tempo para pensar que agora pode
dormir tranquilo, pois alguns estudiosos comprovaram que o seu carro sport
é menos nocivo para o planeta do que o cachorro da senhora...
Ainda em
São Paulo, para entrar no clima de proteção ao meio
ambiente, a prefeitura resolveu fiscalizar os “micro-poluidores”.
Restaurantes e pizzarias que tem forno a lenha devem controlar a fumaça
liberada. A maior parte dos empresários aplaude a iniciativa ecologicamente
correta.
No caderno
sobre a questão do clima de um jornal de grande circulação
em São Paulo, as pesquisas mostram que quanto mais rico, mais o cidadão
polui. Mesmo diante da apresentação destes dados, jornalistas
e estudiosos continuam a afirmar que uma das principais soluções
para resolver o aquecimento global é educar a população
pobre.
Em tempo de
negociações em torno do aquecimento global, abre-se na
mídia a temporada de caça aos culpados sob os argumentos mais
esdrúxulos.
Quando tudo
é negociável, quando tudo não passa de negócios,
aqueles que não dão os menores lucros são os culpados
sempre.
Há muito tempo a vida foi reduzida a isso:
um bem negociável. E isso não ocorre de maneira velada. Todo
mundo quer ser um produto de destaque e garantir sua segurança.
O produto da
vez é o combate ao aquecimento global (desde que não atrapalhe a
economia). Felizes, as pessoas conscientes consomem produtos ecológicos,
fazem sexo ecológico, até o lubrificante, a camisinha e o consolo
podem ser ecológicos. Continuam assim a estimular a economia da
segurança.
E é sempre sobre os menores que se
dão os maiores investimentos de controle. Mesmo que não esteja
ali o problema. Mesmo que não seja uma questão de achar e punir
os culpados. Até porque, ao se proporem ir à raiz do problema,
sugerem eliminar os homens da face da Terra. Mas os bons homens de
negocio diriam: “não, só muitos”.
O jovem empresário no carro sport
chega em sua casa, liga sua TV de plasma (que polui menos que um hamster),
e assiste à coroação da Miss Earth, iniciativa de
uma ONG nas Filipinas que defende o slogan beauty for a cause.
A
nova rainha é uma brasileira de Manaus, quem sabe sua futura esposa? Ao
menos, em tempo ecologicamente correto, é uma parceria
desejável.
palavras insurgentes
"para livrar-se dos governos não
é necessário lutar contra eles pelas formas exteriores, é
preciso unicamente não participar em nada, basta não
sustentá-los e então cairão aniquilados" (tolstoi).
"e para não participar em nada dos
governos nem sustentá-los é preciso estar livre da fragilidade
que arrasta os homens ao laço dos governos que lhes fazem seus escravos
ou seus cúmplices" (tolstoi).
"frustra-me, por exemplo, que se examine sempre o problema das drogas
exclusivamente em termos de liberdade ou de proibição. eu penso
que as drogas deveriam tornar-se elemento de nossa cultura" (foucault).
"a possibilidade de utilizar nossos corpos
como uma fonte possível de uma multiplicidade de prazeres é muito
importante" (foucault).
Outras conversas
Em 1977 emergiu em Salvador, na Bahia, o jornal
libertário O inimigo do Rei.
Afirmando um
posicionamento singular em relação ao sindicalismo, a luta pela
anistia, a liberação das drogas e do sexo, este periódico
libertário que existiu liberadamente até 1988, também
investiu sua gana em textos que adotavam a perspectiva de uma ecologia
libertária.
Para além dos
textos sobre a poluição dos rios e do desmatamento das florestas,
o coletivo que produzia o jornal participou ativamente no início dos
anos 1980 dos movimentos antinucleares no país, afirmando uma ecologia
própria “contra os interesses do Estado, libertária”.
Colaborador em O Inimigo do Rei, Roberto Freire
encerrou seu livro Sem Tesão não há
solução, em 1987, explicitando que a luta ecológica
tem de irromper junto de uma liberação no corpo.
O autor de Coiote,
romance que se passa em Visconde de Mauá, no Rio de Janeiro e no qual
jovens libertos dos costumes autoritários decidem experimentar o calor
da vida e do sexo livre no alto de uma montanha, conclui: “me associo a
todas as reivindicações pelo direito de gozar cotidianamente as
belezas da natureza, o de manter com os outros uma relação de
prazer imediato e sensual”.
Entretanto, hoje, diante de negociantes engravatados e
governos, a ecologia tornou-se programa, agenda, meta para a assinatura de
protocolos e obtenção de recursos e grana ou então
protesto chinfrim na boca de ongueiros também dispostos a
negociar.
Diante desta “marcha uniforme da sociedade organizada
& vestida”, como disse um poeta: O Inimigo do Rei e Roberto
Freire animam outras conversas.
Para mudar o clima: jogue fora o terno e a gravata,
experimente um tanto de calor e aproveite a vida com muita paixão e sem
governo
Aproveite como diz um outro poeta, esse instante
único em que o corpo insiste em
“ficar
no ar
antes de
mergulhar”.
verve 16
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