hypomnemata extra

Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
número extra, junho de 2009

minha querida universidade, não espere mais pelos bárbaros!

A universidade está tomada pela polícia.

A prática policial começa com o regime do exame e das provas, a crença na impessoalidade da razão e nos critérios objetivos que selecionam, separam, classificam e quantificam.

A universidade se acostumou, desde sua emergência, a dizer sobre o fora dela, em preparar dentro dela os que comandam e melhoram a sociedade de uma maneira hierarquizada, em nome da verdade desinteressada, para fazê-la produtiva e justa.

Em determinadas épocas funciona como uma ilha que atrai o continente. É quando ela conversa com os estranhamentos e se vê liberta, temporariamente, da hierarquia e da arrogância. É quando ela libera discursos de contra-poder e catalisa, para dentro e para fora de suas fronteiras, inovações inoportunas às práticas procedimentais. Por alguns instantes, se desvencilha tanto dos dispositivos policiais internos, quanto da governamentalização. Nesse momento, há movimentos e irrupções no relevo que levam à formação de um istmo em direção ao continente. Entram pessoas de fora, sem consentimentos e desprovidos de instrumentos de vigilância normativos ou repressivos. Instala-se um possível.

Na história, essas movimentações acabam redefinindo a ilha e o continente, o istmo submerge e uma engenharia surpreendente restaura a geografia propiciando, por meio de pontes, a entrada de alguns integrantes de setores sociais antes alijados, segundo critérios de seletividade. Ela se democratiza, promove dispositivos democráticos compensatórios e estabelece um conjunto de regras que recoloca a hierarquia, o procedimento, o reparo à injustiça, com novas responsabilidades e solidariedades acompanhadas de um controle ampliado de entradas e saídas, mais velozes e mais numerosos, e paradoxalmente, mais policiais e governamentalizadoras.

A universidade, hoje, não se restringe a formar a elite e a vanguarda, mas contribuir para a formação de elites secundárias, de acordo com o regime de direitos, para estas responsabilizarem-se pelos controles policiais, sociais, culturais e políticos de comunidades. Mais ainda, se pretende democrática, transformando suas emboloradas aulas em edulcorada educação à distância, via satélite. Assim, mantém e amplifica o regime de governo pelo controle de elites, sobre obedientes, conformados e apiedados cidadãos.

Nosso tempo é o da universidade democrática, avaliadora de produtividade quantitativa e vigiada por polícias repressivas — de farda e estatais ou de terno e privadas —, câmeras e delatores respaldados por regras e mais regras aplicáveis a quaisquer contestações, promovendo a agregação familiar de polícias. Aí as greves tornam-se obstrução à circulação livre dos conformistas. As mobilizações estudantis, em pontas de lança de partidos e organizações para formação e aprendizado de futuros burocratas voltados para a melhoria da sociedade.

Dessa maneira, o que poderia ser inovação se vê confinado à rotinização. Os professores e pesquisadores se resguardam na produtividade, em nome de uma avaliação positiva e inquestionável feita pelo Estado. Este também comparece, de tempos em tempos, para a vistoria educacional e com isso provoca um pacto sinistro entre os envolvidos, em função da resposta que o novo mandarinato espera. Tudo gira em torno de uma solução negociada, e quando as sensibilidades afloram não se vê outro jeito senão chamar a polícia repressiva, como medida legal esperada num Estado democrático de Direito. Um enfadonho eterno retorno do mesmo!

Enfrentar a polícia, puxar uma greve, montar comissões para ampliar os espaços de atuação livre entre estudantes, funcionários e professores virou uma balada, uma micareta que acaba em bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Não move o conformismo dos colegas e nem abala a empáfia de autoridades que vomitam o seu respeito às regras e sua conduta ética em nome da conservação da instituição, do prestígio de suas pesquisas e da predominância de sua posição no quadro geral da sociedade.

Alimentam uma polêmica estéril em torno de regras, decretos, mandos e desmandos, renúncias e permanências, que nada alteram a existência dos policiais da verdade, do justo e do correto. Monopolizam os mesmo velhos espaços, inalterados, onde se repete a ladainha batida de reformas mais ou menos radicais, mais ou menos capazes de por fim às fabricadas contradições que se complementam e jamais encontrarão a síntese. Suas autoridades limitam-se a lamentar, esperando que tudo volte ao normal: que os melhores estudantes permaneçam melhores, que os mais produtivos professores continuem os mais produtivos, que os funcionários mantenham-se funcionais e que a polícia volte quando for necessário. Êta vida besta!

Nunca diga que a polícia é imprescindível ao funcionamento da Universidade, ela sabe, ou deve saber como lidar com as forças em luta. A universidade é um espaço de conversações com minorias numéricas e potenciais para que sejam contempladas as singularidades e as multiplicidades, as inovações e suas conquistas necessárias para dar forma às impacientes liberdades.

Ela precisa ser democrática para apresentar outras versões que ultrapassem a representação e a crença na impessoalidade da razão. Para que um jovem estudante não tema inovar; para que conheça o que se espera dele e possa se revoltar contra isso e contra si próprio; a favor de outros abalos sísmicos que vazem as fronteiras e provoquem a volta do istmo que une a ilha ao continente; que diante das recodificações apareçam as descodificações e diante dos limites e dos limitados avistem-se limiares de outros espaços de extensões a serem habitadas. A universidade não estará mais tomada pela polícia. Está?

Os bárbaros não vêm,

e gente recém chegada das fronteiras

diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros, o que será”
de
você?



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