Núcleo de Sociabilidade Libertária




Nem aula, tampouco teatro... Mas, outra coisa

Nem aula, tampouco teatro... Mas, outra coisa.

Texto por Talita Alcalá Vinagre*

Fotos por Syntia Alves**

 

Nas aulas-teatro, não são os corpos que se movem, mas são os movimentos que pedem passagem no corpo. Movimentos que, trabalhados, compõem modos de experimentar e “mexer” com a vida numa contínua afirmação do presente. Espaço que dá vazão às intensidades do sensível e do inteligível. A cada nova aula, um percurso inventado.

As aulas-teatros são também meios de afirmar que os embates políticos se dão diretamente no corpo. Nem aula, tampouco teatro; o Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária da PUC-SP) vem propondo outro modo de problematizar a vida e o pensamento.

Realizadas no teatro de arena (TUCARENA) da PUC-SP desde 2007, escapam ao modelo da aula, do seminário, da relação professor-aluno. Também não pretendem desenvolver-se como uma linguagem teatral autônoma, separada do que se vive e se pensa na Universidade. As pessoas que fazem a aula-teatro não são artistas profissionais e não têm a intenção de interpretar papéis como na tradição teatral.

Na linha de Michel Foucault, pode-se dizer que as aulas-teatro afirmam uma espécie de contralocal, onde todos os outros locais que podem ser achados dentro da cultura são contestados e invertidos. Um espaço real que contesta a sociedade, que opera outro funcionamento, numa ruptura com o que se torna tradicional no espaço-tempo do corpo e do pensamento, atraindo-nos para fora de nós mesmos.

Não se deixa codificar em aula, tampouco em teatro, e não se pretendem projetos de nada. Não são realizadas para conscientizar o público, tampouco confortá-lo. Espaço onde o corpo pode ser dançante, experimentar o movimento, o pensamento do corpo.

Para falar de determinado tema, jogam com uma qualidade, um estado de presença, uma ação real. A representação é assim diminuída por meio de uma operação capaz de suprimir o lado espetacular do teatro ao aproximar-se da vida, impregnando a ação de inquietude. Mínguam tanto a narrativa quanto qualquer significado emocional das cenas.

Por não intentar seguir um programa estético, são produzidas nas práticas diárias do núcleo de pesquisa na Universidade. Uma série de ensaios é realizada pelos pesquisadores do núcleo antes de cada apresentação. Estes se envolvem desde a pesquisa, divulgação, iluminação, sonoplastia e bilheteria. Numa atenção que faz realmente entrever uma não separação entre trabalho e vida.

Mesmo o que se chama de público não se encaixa nas aulas-teatro como tal, pois aquilo que ali acontece demanda o abandono de uma atividade meramente contemplativa e “armada” –  característica do chamado espectador – para que, ao contrário, se acesse outro tipo de presença. Solicita-se estar à espreita de sensações que lhe surjam por meio das paisagens táteis, sonoras, auditivas e visuais produzidas – paisagens que se relacionam com linhas de força ali presentes (físicas, pessoais, sonoras, visuais, de pensamento, organizadas, desorganizadas...). Um procedimento que implica numa experiência do inabitual no corpo e no pensamento. Presenciar o agora do corpo, sua realidade carnal, efêmera e múltipla confere às aulas-teatro também um bocado de alegria.

 

eu, émile henry (2007)

 





 

estamos todos presos (2008)

 
















 

eu, émile henry. Resistências (2011)

 










 

loucura (2011)

 


















 

 

 

*Talita Alcalá Vinagre é Mestranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, integrante do NEAMP (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC-SP) e bailarina convidada das aulas-teatro do Nu-sol.

** Syntia Alves é Doutora em Ciências Sociais, integrante do NEAMP e fotógrafa.

 

Texto publicado na Revista Aurora: http://revistas.pucsp.br/index.php/aurora/article/view/8269/6569


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