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Sobre saques policiais, assassinatos e liberdade
Uma diligência policial entra com um mandado para cassar papéis de propaganda contra a governadora do estado em uma federação anarcosindicalista gaúcha. Não cabe perguntar os motivos, as intenções e estabelecer um processo público para “descobrir” quais os “reais motivos” da ação policial. Tampouco perguntar o quanto de abuso existe numa invasão motivada por uma acusação de injúria a tal governadora e que facilita o confisco de todo material de propaganda, documentos, arquivos, CPUs de computador e atas de reuniões da FAG (Federação Anarquista Gaúcha). As práticas anarquistas, desde sua emergência, não ignoram a relação de complementaridade entre o legal e o ilegal. No entanto, não somente se colocam fora desse dilema liberal, como não partilham das táticas marxistas-leninistas, que combinam ação política legal e ação política ilegal, em nome da revolução. Também, por isso, os anarquistas sempre foram alvo dos controles policiais e do sistema penal em seu conjunto. Os anarquistas não vacilaram, já no século 19, em responder às investidas governamentais em identificar as suas ações políticas com a delinquência, apontando a relação direta entre a propriedade e a riqueza dos burgueses com a prática do roubo, fundadas em uma delinquência tolerada. A propriedade é um roubo! Assim se construiu historicamente o que se chama de crime sob a governamentalidade liberal e reproduzida no século XX pelos governos socialistas, para cassar potências de liberdade identificadas como inimigos. Hoje, quando a polícia invade qualquer casa, associação ou grupo com respaldo da lei e faz disso mote para intimidar e conter a ação de um grupo ou associação, apenas reitera esse dispositivo policial, que na democracia contemporânea ativa um dispositivo de exceção, fazendo a lei funcionar, como deve ser, em favor de quem governa. Identificar isso como repressão policial ou abuso de autoridade é se manter no campo do que é legal ou ilegal dentro da democracia, correndo o risco de ser tragado, como ocorreu e ocorre com certos anarquistas, na busca do justo e do verdadeiro em nome do povo, dos oprimidos e dos explorados. Quem governa, também o faz em nome do povo! Invasões como estas que ocorreram no Rio Grande do Sul, nos alertam para os limites da tolerância liberal no interior de uma democracia representativa e participativa, onde a contestação política deve estar adequada aos contornos da lei, aos limites das participações e denúncias oferecidas aos montes na democracia contemporânea, sob o reino da variedade de direitos. Quem deve mostrar estar isenta, quando interpelada pela ação livre de pessoas livres, e mostrar que está limpa é toda autoridade de Estado da federação. Quem tem que se explicar sobre o assassinato de um professor anarquista, em Roraima, acusado de suicídio inexplicável, são as autoridades estatais! A manifestação
livre expõe a ilusão da transparência dos governos. No anarquismo não há mártires, somente homens e mulheres corajosos que falam e se expõem pela ação direta, quando a maioria prefere permanecer muda e surda! Anarquistas não querem policias, nem cárceres, nem propriedades. Isso fica por conta dos liberais e dos revolucionários do socialismo autoritário. Anarquistas não se curvam diante da liberdade dos governantes. Nem mesmo os pequenos gestos fascistas, pouco noticiados, em nome das leis de exceção do Estado democrático contemporâneo nos sufocarão! Nu-Sol
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