Núcleo de Sociabilidade Libertária




Para dar um fim aos sábios juízos!

Para dar um fim aos sábios juízos!

(Conversação com anarquistas de ontem e de hoje)


2009, quando certos anarquismos e alguns anarquistas não querem estar nas mãos de ninguém!


O grande impasse do anarquismo organizado no Brasil de hoje está em anular os demais anarquismos que não se espelham em seus programas e plataformas. Com isso, preferem entrar nos movimentos que já existem, buscando negociar com as diversas tendências reformistas partidárias burguesas e pequeno-burguesas.

Assemelham-se a qualquer direção de movimento que conduz e influencia na administração das contradições. Nesse sentido, a luta de classes está mais para um conceito teórico obsoleto do que para as práticas anarquistas de ação direta.

O diagnóstico que indica não vivermos em um período revolucionário faz-se elemento da prova de que o anarquismo organizado é somente uma maneira de gerir os conflitos.

Pela anulação dos demais anarquismos, reduzem a federação a uma organização pretensamente conspiratória fechada e satisfeita em seus círculos concêntricos.

A conduta ética do anarquismo organizado está balizada pela ação da elite dirigente que transforma os militantes em estagiários e aspirantes de maneira análoga à dos partidos democráticos ou não.

Ao privilegiar a luta econômica transforma lutas pela liberdade em retórica e refém da suposta igualdade sócio-política a ser alcançada no futuro, por meio de uma ação revolucionária conspiratória. Apesar de pretenderem adequar os meios aos fins, diferenciando-se da tradição marxista-leninista, resvalam para outras similitudes inesperadas. Professam sua fé na classe explorada, idealizando-a como sujeito histórico da transformação e subestimam a luta propriamente dita, aninhando-se no conceito de organização popular.

Crêem que a liberdade de cada um está condicionada à liberdade da coletividade, esquecendo-se que na história dos anarquismos a liberdade não é propriedade de ninguém e sim efeito da luta anarquista de cada um que dá forma à sua liberdade em cada época, em cada ocasião, em todas as ações.

O anarquismo organizado escolheu entrar por dentro das instituições, considerar etapas a serem cumpridas para alcançar a transformação, negociar soluções tópicas e desprezar as lutas pela liberdade no mísero cotidiano estabelecido nas relações de trabalho cada vez mais assujeitadoras.

A anarquia nas relações econômicas começa no trabalho, nas invenções de liberdade que inibem e suprimem autoridades e foi assim que surgiram as consistentes associações de trabalhadores. De maneira diferente dos demais socialistas, os anarquistas nunca se satisfizeram com as instituições e por isso nunca usaram da militância como uma profissão: vivem na luta e não da luta. Até mesmo o sindicato teve seu momento e foi ultrapassado pelo corporativismo e as negociações das relações trabalhistas entre as suas lideranças e as burocracias gestoras da propriedade privada e estatal.

O anarquismo social prefere lutar pela libertação teórica da classe que pela própria liberdade de se libertar das relações de produção capitalista, das instituições burguesas políticas e sociais. Faz da vida uma esquizofrênica existência de servidão cotidiana ao trabalho e de purgação de culpas misturando-se aos movimentos sociais em horários alternativos. Quando não, acolhem-se nas cooperativas para viver do trabalho voluntário de outrem em função do momento histórico capitalista ainda não ultrapassável. Chamam a isso, convenientemente, de autogestão. Desta maneira confirmam as teorias da administração que capturaram a palavra autogestão em práticas de empregabilidade e filantropia, chamando-as até de economia solidária.

Do ponto de vista metodológico mantém o que sempre foi contestado pelo anarquismo histórico de múltiplas afinidades que é a proximidade com o positivismo ao tomarem a sociedade como corpo, os grupos como órgãos, as ações condicionadas a diagnósticos e prognósticos de realidade, confundindo, também, o possível aspirante a anarquista com o palavreado teoria-prática herdado do socialismo autoritário.

Buscam uma justificativa lógica e excludente para a revolta e condicionam a existência da passagem do aspirante a militante à revelação da verdade por parte do cerne da elite organizada. Ainda que digam que os conceitos se produzem na prática esta está previamente atrelada aos conceitos teóricos e, por conseguinte, a uma específica consciência revolucionária. Instauram o anarquismo acadêmico valendo-se da notabilidade de seus intelectuais!

O especifismo nada mais é do que uma política partidária no movimento. Mesmo que este partidarismo se apresente como posicionamento ao lado da classe e dos movimentos sociais, perigosamente ele dá as costas para as outras atitudes insurgentes que aparecem no diagnosticado período ainda nada revolucionário. Como os velhos socialistas esperam pelo momento histórico a ser determinado pela vanguarda esclarecida do anarquismo. São anarquistas, sem dúvida, mas são pouco libertários!

Paladinos da justiça, donos da verdade moral, não cansam de afirmar com determinação que é pelo especifismo que um simpatizante, um rebelde, um incomodado poderão ascender definitivamente à restauração do juízo.

Seus brados contra as injustiças perpetuadas pela propriedade e o Estado alimentam o ressentimento que habita a vítima para que em seu nome tudo que a organização colocar possa ser viável e imprescindível, com votação, consenso, convencimento e omissões, muitas vezes silenciadas pelo medo.

Em outras ocasiões são estimuladoras para que o jovem militante cumpra sua educação burocrática e receba uma ideal certificação que o habilitará, mais tarde, a integrar partidos da ordem e ONGs, extraindo lucros políticos do ressentimento social, e desta maneira, compor o necessário para a manutenção e restauração da ordem burguesa e do estado das coisas. É no trânsito entre os vários grupos de influência e condução política que se mantém o funcionamento dos fluxos democráticos na sociedade capitalista de hoje.

O jovem militante ou aspirante envolvido com o movimento social recebe o atestado de ascensão na organização depois de avaliado pelos superiores e, desta maneira, passam para o outro círculo mais restrito com acesso a uma parte do segredo burocrático. Até quando? Até quando cessar a sua juventude, sua formação política ou profissional ou se solidificar sua condição de mentor das vítimas. Para o anarquismo social organizado só pode haver franqueza anarquista quando o militante se espelhar em seus condutores específicos.

É possível anarquismo sem prática social? Os demais anarquistas estão confinados em laboratórios, em páginas de livros ou são fantasmas que aterrorizam os puros e os justos? Durante muito tempo o anarquista esteve associado à imagem do baderneiro, do inconseqüente, do irresponsável, do agitador, do voluntarista, do portador da doença infantil do esquerdismo. Agora, chega o anarquismo organizado para identificar e acusar os demais anarquistas com os mesmos e outros depreciativos em nome do quê? De uma sociedade igualitária modelar onde a disciplina e a autodisciplina não serão mais impostas mas rousseaunianamente exercidas por cada um por meio da delação em nome da verdade, do bom senso e da responsabilidade social.

Aí chega um momento em que o anarquismo organizado especifista se apresenta condescendente com todos os demais anarquismos chamando-os de sintetistas, identificando-os como anarquistas, mas não escondendo que são menos anarquistas do que os organizados. Trata-se de uma artimanha para parecer pluralista quando aspiram hegemonia para conduzir a todos em suas fileiras, teoria e determinação nas lutas.

São covardes pois admitem não possuírem, ainda, força suficiente para impor seu programa e/ou plataforma, mas como os leninistas no século passado, quando tiverem a força na mão não vacilarão em anular os demais como elementos retrógrados. Que o diga a própria vida de Mahkno!

Confiam que a história está ao lado deles assim como a pátria está ao lado do soldado. Desejam crer que a luta pode se dar entre vanguardas como no caso da Revolução Russa e nos efeitos sobre a Revolução Ucraniana, no embate entre dois líderes, a diplomacia de dois paizinhos e seus exércitos.

A vitória na guerra é somente a prova histórica de uma razão pretensamente universal e humanista, que o digam os mortos da Comuna de Paris, da revolução Russa, da Revolução Espanhola, dos movimentos anarquistas no Brasil, Argentina, Uruguai...

A luta anarquista não requer provas, nem razão superior, mas liberdades construídas pela coragem dos guerreiros.

A violência na revolução não é prioridade de ninguém; é um golpe. Ela aparece inevitavelmente em conservadores, fascistas, liberais, socialistas e seus exércitos.

Proudhon mostrou que não há revolução sem a restauração do soberano. A violência é o argumento legítimo da autoridade; a federação é a prática associativa dos anarquistas livres da idéia de revolução; é a prática da revolução permanente que não ousa dizer que a passagem para outra sociedade será pacífica em si e nem que a nova existência esteja aprisionada no conceito de revolução violenta. O que faremos será resultado de lutas e invenções de liberdades! Quem poderá dizer que o conceito de sociedade também não morrerá porque as práticas se dispensarão de outro universal?

Isso não é sintetismo; este conceito é um preconceito hegeliano que os anarquistas federativos e mutualistas nunca passaram perto. A série anarquia também se divide em autoritária e libertária. Isso não é fantasia! Relembremos os catecismos de Bakunin e Nietchaiev. Num catecismo não cabe quem não crê no dogma! Não confunda não-organizativo com espontâneo ou baderna; e minoria ativa com força reativa, vanguarda ou condutores da luta de classes. E não confunda, também, luta de classes com a sua luta, apartando-se dos demais anarquistas.

Levar a luta de classes no interior de uma suposta organização popular é desconhecer os combates e subestimar o povo, ou pior, superestimar a si mesmo e o povo. A luta de classes, conceito elaborado por Marx e mal digerido por Bakunin, é uma abstração criada pela teoria para se compreender a realidade, ou seja, ela só existe na teoria. Não há como se aproximar ou se distanciar dela a não ser academicamente e como modelo explicativo para uma prática revolucionária de restauração do soberano, chame-se rei, povo, Estado, pai, filósofo. Ainda bem que a luta anarquista não se confina nas experimentações de um século atrás e tampouco em teorias!

Que o anarquismo organizado, social e especifista faça o que quiser de si e de quem a ele se imantar. Mas deixe os demais anarquismos livres de seus conceitos, juízos e profecias!


Numa época de conservadorismo moderado a urgência está em inventar um povo e não se imiscuir em emboloradas organizações conceituadas populares. O povo anarquista habita o planeta, inventando espaços de liberdade que não estão e nem estiveram enjaulados numa teoria. Para existir os incontáveis movimentos anarquistas é preciso uma atitude libertária.


Edson Passetti e Acácio Augusto

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